sexta-feira, novembro 08, 2002

Esquecer para acontecer

Esqueci-me por completo. Então é assim que funciona. Vc. esquece e acontece.
Vc. quer lembrar e tudo se perde.
Toca o telefone. - Olá éa ....-Sim!
-Vc. escreveu vários contos?
-Como?
-Eu li histórias suas!
- Onde?
- Vc. participou do Palco Habitasul!
- Ah! Mas eu não recebi nada ainda.
- Tá aqui o livro, seu conto foi publicado como destaque, pode comemorar!
- Não acredito!
- Mais um para a coleção.
Blá, blá, blá, blá, blá...

Depois de anos, alguém te liga.. e a memória do tempo que já se julgava perdida, volta a cena.
Essa memória foi boa!


A Memória do Tempo



Imagine pilhas de agendas de telefone espalhadas em uma casa. Uma única pessoa capaz ou autorizada a consultá-las. Ali estão todos os números da cidade.
Alguém se aproxima da casa e no quintal vê relógios pendurados no varal. Caminha em direção à porta. Vê mais relógios com as pulseiras abertas deitados ao chão, como se espreguiçassem ao sol, como estrelas do mar.
O dia está nublado ou é noite. As imagens são imprecisas, como todo sonho, se sobrepõem e se confundem, como um filme cheio de cortes e colagens de várias cenas.
A moça que está dentro da casa se apressa em vasculhar as agendas como se a visita lhe tivesse pedido um número. Os números controlam palavras. Sem eles todos estão presos na infinita teia do tempo.
A casa gira; deixa ver o que por trás esconde: um deserto de areias alvas.

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