Uma boa maneira de compreendermos este pensamento e esta fidelidade com a vida expressa por Camus. É utilizarmos o próprio mito de Sísifo, assim como o autor do ensaio em questão utilizou-se.
Sísifo, rei de Corinto , era o mais audacioso dos mortais, visto que este havia acorrentado a morte. Plutão não suportando o espetáculo de ver seu reino vazio, uma vez que já não morria mais ninguém, manda o deus da guerra soltar a morte.
Sabendo do ódio de Plutão pelo seu feito, Sísifo articula com sua esposa uma maneira de enganar Plutão e assim não ser castigado quando morrer. Sísifo ordena a sua esposa que: quando sua hora chegar, seu corpo seja jogado em praça publica e não receba as devidas homenagens póstumas.
Deste modo quando Sísifo finalmente morreu e foi encaminhado ao inferno, ele pediu a Plutão para lhe dar uma boa olhada e ver o estado em que ele ali se encontrava, o estado como sua mulher lhe havia tratado. Plutão, não sabendo que aquilo era um truque lhe dá licença para voltar a vida e a terra para que Sísifo castigue sua esposa.
Quando Sísifo regressou, não castigou esposa nenhuma, muito pelo contrario, foi viver com esta na curva do Golfo, junto com as águas, o sol, as pedras, as flores. Vivendo assim ainda muitos anos.
Foi preciso uma assembléia dos deuses, para mandarem Mercúrio vir busca-lo pela gola, roubando-lhe as alegrias, levando-o a força para os infernos.
Os deuses condenaram Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha e lá o manter, entretanto devido ao peso do rochedo arredondado, este caía de novo. Os deuses tinham pensado por alguma razão que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
Sísifo é fiel a sua tarefa absurda. Empurra o rochedo, que ao chegar ao cume rola até o sopé. A fidelidade de Sísifo é consciente, deste modo ele é superior aos deuses que lhe impuseram tal condenação.
Para Camus todos compreendem que Sísifo é o herói absurdo. É o tanto pelas suas paixões quanto pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe este suplicio indizível.
Deste modo Camus acredita que se o homem comum , a semelhança de Sísifo, jogado numa série de tarefas repetidas e exaustivas, for consciente, alcança aquela superioridade sobre seu destino, e por conseguinte será feliz. A lógica absurda manda viver para afirmar que a vida é um grande absurdo. Mantendo o absurdo, rejeitando o suicídio,nos instalamos na revolta e esta através da negação da morte nos traz a liberdade como conquista.
[Cristiano Goes dos Reis]
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